O louvor nos salmos é, por vezes, o resultado de um aprendizado de fé, como é o caso do salmista no Salmo 71: “Tu me tens ensinado (lamad), ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado (nagad) as tuas maravilhas (pala)” (Sl 71.17).
A nossa adoração e louvor a Deus não se resumem à repetição de frases prontas, vazias de sentido. Pelo contrário, são expressões vivas de um profundo conhecimento de Deus e de uma relação pessoal com o Altíssimo. Por meio do louvor, proclamamos os seus feitos e revelamos a intimidade que temos com Ele.
Nos Salmos, encontramos um testemunho missional − uma expressão da revelação divina, diluída na experiência dos salmistas. Seus escritos refletem suas vidas como espelhos, apresentando uma teologia vivida e sentida. Essa teologia não é meramente conceitual, mas encarnada, acessível a todos que desejam fazer parte do círculo cada vez mais amplo dos que adoram a Deus em espírito e em verdade.
Assim, o salmista canta sua fé com profundidade e paixão:
Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses. (Sl 97.9).
Cantarei (shir) a bondade e a justiça; a ti, SENHOR, cantarei (zamar). (Sl 101.1).
Muitas graças (yadah) darei ao SENHOR com os meus lábios; louvá-lo-ei (halal) no meio da multidão. (Sl 109.30).
O fundamento da missão está na convicção de que Deus é o Senhor de toda a Terra; o Deus dos deuses:[1] “Pois o SENHOR Altíssimo (elyon) é tremendo, é o grande rei de toda a terra” (Sl 47.2).
Sem qualquer concessão ao “politicamente correto”[2] diante das religiões pagãs, o salmista proclama, com ousadia e convicção, um desfile majestoso dos atributos de Deus − atributos que, por sua grandeza e santidade, devem conduzir todos à adoração reverente, marcada por profunda alegria e piedade:
4Porque grande (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado (halal), temível (yare) mais que todos os deuses. 5Porque todos os deuses dos povos não passam de ídolos; o SENHOR, porém, fez os céus. (Sl 96.4).
Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo (elyon) sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado (alah) acima de todos os deuses. (Sl 97.9).
Porque o SENHOR é o Deus supremo (gadol) e o grande (gadol) Rei acima de todos os deuses. (Sl 95.3/Sl 96.4).
O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande (gadol) como o nosso Deus? (Sl 77.13).
O SENHOR é grande (gadol) em Sião e sobremodo elevado (rum) acima de todos os povos. (Sl 99.2).
Grande (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (tebunah) (= inteligência, aptidão, habilidade) não se pode medir. (Sl 147.5).
Louvor resultante da graça
Agostinho (354-430), de forma poética, mostra que o nosso louvor a Deus é o fruto do trabalho do Agricultor em nós. Embora o louvor nada acrescente a Deus, nós crescemos quando sinceramente bendizemos o Senhor atestando o resultado de sua obra em nós:
Quando Deus nos abençoa, nós crescemos, e quando bendizemos ao Senhor, também crescemos; ambas as coisas são para o nosso proveito. Ele nada ganha quando o bendizemos, nem diminui por nossas maldições. (…) A bênção do Senhor vem-nos em primeiro lugar, e por consequência também nós bendizemos ao Senhor. A primeira é a chuva, e esta é o fruto. Por isso estamos entregando a Deus, o agricultor, que nos manda a chuva e nos cultiva, o fruto que produzimos. Cantemos estas palavras com devoção, mas não estéril, nem só de voz, mas com um coração sincero.[3]
Louvor teocêntrico e missionário
No nosso louvor, Deus é quem deve ser engrandecido, a sua glória é que deve ser buscada e proclamada. Ele é o centro de nosso culto e adoração.
Se, pois, jubilais de tal modo que Deus ouça, salmodiai também de sorte que os homens vejam e ouçam; mas não a vosso nome. (…) Presta atenção ao fim, conta com certa finalidade; considera qual o fim que te move. Se ages assim para seres glorificado, foi o que proibi; se, porém, para que Deus seja glorificado, foi o que mandei. Salmodiai, portanto, não a vosso nome, mas ao nome do Senhor vosso Deus. Salmodiai vós; Ele seja louvado; vivei bem e Ele seja glorificado.[4]
O salmista convoca os fiéis a anunciar com alegria o Reino absoluto do Senhor:
“10 Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade. 11 Alegrem-se os céus, e a terra exulte; ruja o mar e a sua plenitude” (Sl 96.10-11).
Hipólito de Roma (170-235), mesmo com alguns pontos teológicos controversos, apresentou uma ênfase correta ao interpretar o Sl 96.11:
Por essas palavras significa que a pregação do evangelho será propagada além mares e nas ilhas do oceano e entre os povos que habitam ali, que são aqui chamados “a plenitude”. E essa palavra foi cumprida. De fato, as igrejas de Cristo enchem todas as ilhas e se multiplicam todo dia e o ensino da Palavra da salvação.[5]
“Anunciai (saphar) entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas (pala)” (Sl 96.3), canta o salmista. Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:
O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[6]
Portanto, esse fato demanda a nossa responsabilidade missional: “É nosso dever proclamar a bondade de Deus a toda nação”, conclui Calvino.[7]
O caráter missional dos salmos é demonstrado em outros lugares:
Rendei graças (yadah) ao SENHOR, invocai o seu nome, fazei conhecidos (yada), entre os povos, os seus feitos. (Sl 105.1).
Render-te-ei graças (yadah) entre os povos, ó SENHOR! Cantar-te-ei louvores (zamar) entre as nações. (Sl 108.3).
Fonte:Trecho de Voltemos ao evangelho
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